"Só descubro nas viagens maritimas, á ilharga dos já notados, mais dois contras de relêvo. Um, exclusivo dos que não amam a bordo, pois esses contam os dias por minutos - o da sua excessiva duração. Ao sexto dia aborrece. Ao oitavo dia faz negar a era do hidro-aviador. Ao decimo obriga a amaldiçoar o engenho de Marconi. E ao decimo segundo, apezar de musica, do faisão dourado e das misses confortadas a champagne, levanta a tais alturas o vulto dos ascendentes das descobertas, daqueles que sobre as aguas do mar balouçaram mezes e anos, sem mulheres decotadas e sem rumo certo, que se nos afigura baixo o céo para os conter.
O outro, o numero dois, deram-lhe no batismo o nome de enjôo."
"Pois digo-lhes que só conhece o gosto de viajar, quem toma um transatlantico e se confia á viva estrada dos mares. O comboio, com as suas acanhadas cabines, é uma rua de jazigos onde nos engavetamos a tantos minutos por kilometro. (...)
Quen viaja num navio, não o nego, tambem abdica. Abdica de certos habitos quotidianos, referentes ao sistema dos horarios e das obrigações. (...)
Mas, a par destes contras, tão ligeiros como a espuma sobre a vaga para o que voluntariamente se entrega á prisão, a viagem maritima oferece-nos fartos prós compensadores."
"Trabalhar cada vez menos e descançar cada vez mais.
Nunca ceder à tentação de sair da cama antes do meio dia.
Dedicar vinte e duas horas por dia a dizer futilidades e guardar duas para estudar as que hão de ser servidas no dia seguinte.
Limpar todas as esquinas do Chiado e rua do Ouro com as costas.
Ir a todas as recitas da moda.
Lêr todos os livros aprehendidos.
Empurrar sempre as senhoras á entrada dos carros e nunca lhes ceder o logar.
Sacrificar quanto possivel o conforto de outrem ao seu.
Relacionar-se cada vez mais com gente rica.
Pagar as dividas com promessas e guardar o dinheiro.
Tornar-se cada vez mais sceptico e efeminado.
Escrever um mau livro de versos."